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"O CAMINHO PARA OS SETE MARES"

Por Joaquim Maria Botelho, jornalista, escritor e presidente da União Brasileira de Escritores.

Desde os tempos dos fenícios, mestres da navegação, o homem caminha sobre as águas. Os vikings, os chineses, os gregos e mais tarde, os portugueses, se aventuraram nos mares, enfrentando a crença da época de que as águas eram habitadas por monstros e o mundo era chato como uma panqueca. O terror dos navegantes era a ideia de que havia uma imensa cachoeira em que despencariam os navios que arrostassem os deuses. No mundo contemporâneo, a grande figura do aventureiro marítimo é Amyr Klink, que eu tive a honra de entrevistar nos meus tempos de repórter especial da Revista Manchete. Foi logo depois de sua chegada a Salvador, vindo de cem dias de travessia a remo desde Dakar, no Senegal. Amyr Klink desafiou os mares. Martinês Rocha de Souza não chegou a isso, mas desafiou os próprios limites; o que dá quase no mesmo.

Falando nisso, não podemos dizer que Martinês seja um herói no sentido clássico da palavra. Não lutou batalhas, não chefiou exércitos e nem criou um sistema político. O que ele fez foi encarar a vida com toda a intensidade, o que faz dele um homem de coragem, que resistiu muitas vezes à vontade de desistir. Passou por preconceito, desprezo e descrença por parte de pessoas próximas, superou invejosos com a filosofia cristã de perdoar e dar a outra face, ciente de que a vingança não é nobre.

O relato que há neste livro é a história de uma pessoa comum, com qualidades, defeitos e pequenos vícios – um ser humano. Todavia, um ser humano uma pessoa equipado com a invencível determinação de ser feliz. Martinês encontrou caminhos porque encontrou pessoas e encontrou pessoas porque encontrou caminhos. Onde havia estradas, perguntou como chegar até elas. Onde não havia estradas, foi aprender como construí-las. Esta é a história de um homem forte. Muita gente pode aprender com essas aventuras.

"ALÉM DOS SETE MARES"

Por Júlio Leite.

Instigado que só, Martinês nos presenteou com o seu segundo livro Além dos Sete Mares. Se no primeiro relato, O Caminho Para os Sete Mares, descobrimos e ficamos pasmos ao vislumbrar como o menino pobre da Rua de Baixo ganhou o mundo com muito suor, trabalho e fé, agora temos a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a vida deste herói que, hoje, já contabiliza mais de 100 países no passaporte.

Entre bares e mares, o segundo relato de nosso garçom nos arrebata com uma escrita visivelmente mais madura, segura de si e que não demora a mostrar a que veio. Muitas vezes, durante a leitura, me senti acometido pelos flancos por toda a vibração dos locais e pessoas eternizadas – muitas vezes sem saber – nas páginas deste livro, que em alguns momentos não fica distante dos relatos mais emocionantes e honestos de Jack Kerouac, autor de On The Road.

Por vezes, lendo Além dos Sete Mares tarde da noite, fui carregado pelo fluxo de consciência do Martinês e entrei em um frenesi de catarse, como se pudera eu mesmo estar ali naquela cidade medieval, no ponto mais profundo de um enorme fiorde que avança ao interior de Montenegro. Minha alma dançou com o lirismo das montanhas altíssimas e pedregosas manchadas com o verde das árvores e que desabam vertiginosamente sobre o Adriático naquele tom de esmeralda que só ele tem. Os relatos detalhados e intimistas do período em que o autor morou na Austrália só não são mais empolgantes do que as subsequentes reviravoltas.

Particularmente, o primeiro livro me foi marcante e teve papel primordial em seríssimas decisões que tomei em minha vida mas, como o assunto não sou eu, vejamos o que este livro traz que você não adivinharia pela capa. Se conhece a primeira parte desta jornada do herói, você já sabe que o teor do livro intenciona, além de fazer um relato aventureiro, despertar e incomodar o coração dos jovens que se sentem sem esperança ou acomodados perante o futuro e os lembrar da importância do estudo e do trabalho. Todavia, não se engane! Você está diante de uma obra de grande valor literário e estético. Indo além do puro desenvolvimento pessoal com teor autobiográfico, as linhas nos carregam e – não hei de mentir – reviram os recônditos mais escondidos de nosso coração.

Como ninguém, o menino da Rua de Baixo sabe que ninguém chega lá sem força de vontade e sem acordar antes de o sol nascer. Apaixonado, vibrante, inquieto e impulsivo como um Dmitri Karamázov, Martinês chegou lá não por ter ganhado em uma loteria genética ou financeira, mas por ter feito escolhas acertadas e nunca abandonar as firmes e profundas raízes de sua família.